terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Coisa antiga...
Coisa antiga, sabe o que é ? Pular corda, ralar o joelho e chorar quando a mãe passava remédio. Coisa antiga, sabe o que é ? Receber carta, mandar carta.... Falar dos sentimentos sem vergonha, sem medo. Colar adesivos no envelope e ficar torcendo pra que a carta chegasse logo. Ligar o computador e jogar o tal jogo da bolinha, por simplesmente achar aquilo um máximo. Fazer desenhos pra professora, e a chamar de segunda mãe. Pular no jardim do vizinho e roubar flores para entregar à alguém especial - as flores mais bonitas. Coisa que não volta mais, era a menina sair da escola e correr pra brincar no galho da árvore, demorar pra ir pra casa e tomar bronca da mamãe. Coisa que faz falta, coisa que não volta mais. É a menininha sem juízo e sem nenhuma noção debruçar num rio para ver um passarinho caído e todo doído e sentir dó, até cair e se esborrachar no chão - ou melhor, no rio - voltar pra casa toda molhada e mesmo explicando a história toda do desequilíbrio na beira do rio... Tomar bronca e um castigo daqueles de tirar o desenho pela parte da manhã. É andar de patins pela sala, fingindo ser um navio que estava prestes à afundar, meu nome era Rose, e eu era dona do mar. Fazia fantasias e desenhos sem parar. Corria pela casa, e deixava de pernas pro ar. Sabe o nome disso, flor ? Infância. Infância histórica. Da qual meus netos saberão. Da qual meus amigos sempre rirão. Pular do sofá e se estatelar no chão. Em plena noite de natal, causar muita preocupação. Chorar por coisinhas bobas, e ter aquela dor no braço da bolada após o jogo de queimada como a maior dor no mundo. De não achar posição ou solução pra melhora. "É a maior dor do mundo" pensava. E no dia seguinte outra vez me machucava. Era perfeito, sem nenhuma preocupação. Apenas inseto que entrava pela janela e me fazia sair correndo do quarto gritando pela escuridão. Pesadelo ? "Corre pro quarto da mamãe". Agora, pesadelo mesmo é viver e saber que tem hora pra isso. Saber que tem hora pra tudo. Tô na pior da melhor fase. Mas tô curtindo a memória do melhor, da melhor parte de minha vida. E vou lembrar sempre disso, de quando era moda usar All Star vermelho, e meia listrada colorida. Agora a moda é sair pra procurar emprego, estudar fórmula química, e procurar passar de ano, mesmo que no sufoco. A gente vive assim, perdendo a razão mesmo tendo-a no princípio. A gente se cala mesmo querendo falar, mesmo que a vontade de gritar seja sufocante e impossível. A gente não quer, mas a gente tem obrigação. A gente dá satisfação, mesmo não querendo ficar preso por um monte de razões bestas das quais nem deveriam existir. Agora, queria mesmo era voltar a ser criança. A ter paparico. Quero colo, quero trégua. Agora, a gente assiste jornal, a gente lê horóscopo na esperança de que toda aquela previsão seja verdadeira. A gente presencia coisas que preferiríamos não pensar. A gente tem prova, não só simulação, mas prova de vida mesmo. A vida nos testa muitas vezes, e temos que provar pra ela e pra todos que não precisamos disso pra viver. Querem escolher pra gente o que fazer, querem escolher pra mim o que eu devo escolher. Mas eu não aceito, eu me recuso. E logo, logo. Vou sentir falta, sei que tudo isso vai fazer falta. A gente quando criança, quer ser logo gente grande, pra sair e curtir, poder usar as roupas que quiser, e assistir programas cada vez com mais limitações de idade durante a madrugada. Mas quando tudo isso chega, a gente quer voltar. E ao mesmo tempo, a gente quer ficar adulto logo, sair da barra da saia da mamãe, e parar de depender do dinheiro do papai. Mas a gente sai, mora sozinho, trabalha, compra sua própria sustentação, e mesmo assim a gente quer voltar. Já ouvi falar muito disso, e sei que isso realmente acontece. Mas fazer o quê ? A gente tem mesmo é que se contentar. Mesmo com o pouco, mesmo com a vontade de voltar.
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